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Baile de Máscaras

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Por Marcelo Ferrari

Foto de Marja Flick-Buijs, Holanda

Acendem-se as luzes. De novo, um novo dia. No palco, o mesmo planeta de sempre. A peça em cartaz também é a mesma: “O baile de máscaras”. Os atores… Trimmmmm! Não dá mais tempo, já vai começar.

Toca o despertador, e o homem com máscara de empresário sai pela rua com os vidros do carro fechados. Seu sistema imunológico metaboliza títulos em ordem alfabética. A mão com máscara de coitada bate na janela, mas o chofer com máscara de fiel diz que hoje não. O farol abre. Na esquina, o velho com máscara de síndico conversa com a senhora com máscara de lamento. Ela recita seu texto chorosa e tranqüilamente, enquanto o velho com máscara de síndico balança a cabeça sem talento algum.

Na farmácia, alguém com máscara de farmacêutico atende o rapaz com máscara de doente. O cliente se irrita com o preço do calmante. Atravessa a rua e vai comprar cigarros na padaria do senhor que não queria fazer o papel de padeiro. Lá, muitos mascarados passam em rodízio; alguns por costume, outros por vício. Na hora do almoço, entra em cena o rapaz com máscara de garçom. Seu papel é servir o pernil com máscara de saboroso ao homem casado com a mulher com máscara de indiferente. Seus filhos, adolescentes, usam máscaras de quem não tem máscara.

As luzes vão caindo pela ribalta. Os mascarados disfarçam as curvas indesejáveis, retocam a idade com massa cosmética, e saem pelas sobras da noite, peregrinando de bar em bar, comprando gargalhadas com gotas de álcool. Crentes de que são autênticos, chegam ao clímax de quatro, inventando significados enciclopédicos pra palavra “amor”. Depois engolem as páginas junto com comprimidos. Do outro lado do balcão, alguém revela a verdade absoluta num longo arroto. De tão distorcido, soa natural. O som se propaga pelo salão-bar-de-beleza feito telefone-sem-fio, ampliando-se copo a copo.

Por fim, o mundo alcança o seu limite. Não há mais como suportar a pressão de viver pisando em ovos. O sol chega inevitavelmente. Os mascarados, então, voltam pelas ruas tentando arrancar o que já está grudado. Alguns desfalecem pelo caminho e resolvem dormir pra sempre nas praças. Outros, persistentes, chegam até suas casas e, de pijamas, sonham como seria dormir nus.

Fonte: Blog Xixi Com Tinta de Marcelo Ferrari. Ferrari é filósofo e escritor.


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